sexta-feira, 28 de agosto de 2026Jornalismo independente de Minas Gerais
CÂMARA DE MARIANA

Cerveja produzida por padres em Juiz de Fora conquista ouro em concurso internacional

Foto de Rodolpho Bohrer
comunicacao@maisminas.org
SAMARCO - AGOSTO

No subsolo da Igreja Nossa Senhora da Glória, em Juiz de Fora, uma tradição discreta atravessa mais de 130 anos. Longe das grandes fábricas e dos centros comerciais, religiosos da Congregação Redentorista preservam um modo de produção artesanal que nasceu no fim do século XIX e que hoje ganha destaque fora do país.

Padre Jonas Pacheco é um dos responsáveis pela produção da cerveja artesanal — Crédito: Cervejaria Hofbauer/Divulgação

A Weissbier produzida pela Cervejaria Hofbauer conquistou medalha de ouro no Brazilian International Beer Awards, considerado o maior concurso de cervejas independentes da América Latina. O rótulo recebeu nota 97 em uma avaliação que envolveu aroma, sabor, equilíbrio e conjunto sensorial. Mais de mil inscrições participaram da disputa, com especialistas do Brasil e do exterior.

O reconhecimento marca um momento especial para a Hofbauer. Foi o quarto prêmio de 2025, justamente no ano em que a cervejaria passou a participar oficialmente de competições.

Origem europeia e continuidade em Juiz de Fora

A história da Hofbauer remonta ao período em que missionários redentoristas chegaram ao Brasil trazendo a tradição monástica de produção de cerveja, inspirada em práticas comuns em conventos da Holanda, da Áustria e de outras regiões europeias. Em Juiz de Fora, a fabricação foi incorporada à rotina religiosa e transmitida entre gerações.

O processo segue marcado por uma lógica artesanal. A produção é limitada, com lotes de aproximadamente 350 litros, fabricados apenas quatro vezes ao ano. O maquinário preservado impressiona: equipamentos importados da Holanda em 1907 continuam sendo utilizados, operados de maneira manual.

A atividade chegou a ser interrompida por cerca de 15 anos. A retomada aconteceu em 2009, sob coordenação do padre Flávio Campos. Ele reorganizou o espaço, registrou as etapas e ajudou a apresentar a produção ao público. O religioso morreu em 2020, aos 44 anos, mas deixou um legado que garantiu a continuidade do trabalho. Foi nesse período que a cerveja do convento passou a ser conhecida fora do ambiente religioso, incluindo a participação no festival Forest Beer, em Juiz de Fora, em 2019.

Reconhecimento técnico e preservação cultural

Na avaliação do concurso, a Weissbier se destacou por características consideradas tradicionais do estilo. A bebida apresenta coloração amarelo-claro, aparência naturalmente turva e teor alcoólico de 5,3 por cento. O corpo é leve, o amargor é baixo e o final é discretamente cítrico, combinação que ajudou na alta pontuação.

Para os responsáveis pela produção, o objetivo nunca foi competir com indústrias ou ampliar de forma ilimitada a fabricação. A prioridade é manter a fidelidade às receitas históricas e à técnica transmitida entre os religiosos, aliando memória, cultura e conhecimento técnico.

Parte da renda obtida com a produção é destinada a projetos sociais da paróquia, o que reforça o caráter comunitário da iniciativa. A Congregação Redentorista, fundada na Itália em 1732, mantém essa tradição como elemento de identidade. Em Juiz de Fora, ela une fé, trabalho artesanal, resgate histórico e reconhecimento contemporâneo.

Hoje, a Hofbauer produz sete estilos diferentes de cervejas artesanais. O portfólio inclui rótulos como Pilsen, Belgian Blond, Belgian Pale Ale, Belgian Dubbel e outras versões que seguem padrões clássicos, sempre com produção limitada e cuidado técnico.

Mais do que uma curiosidade, a trajetória da Hofbauer se transformou em um exemplo raro no país. É a permanência de um ofício antigo, mantido no porão de uma igreja, atravessando gerações e alcançando reconhecimento em eventos especializados sem abrir mão de suas origens.

Sobre o autor Rodolpho Bohrer

Sócio-proprietário e fundador do Mais Minas e jornalista em formação pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Redator de cidades, tecnologia e política, além de link builder na Agência MaisPost. Em 2026, foi um dos repórteres vencedores do prêmio estadual "Tributação e Justiça Social", promovido pelo Sindicatos dos Jornalistas Profissionais do Estado da Bahia (SINJORBA).

PARTICIPE

Comentários

Contribua com informações, contexto e opiniões sobre a notícia. Mantenha o respeito aos demais leitores.

Comentar como visitanteSem criar uma conta

Seu comentário

Seu e-mail não é publicado e é usado somente para identificação e moderação. O comentário não cria uma conta de usuário no site.

0/4000

Ao enviar, você concorda com a moderação editorial e com a Política de Privacidade do Mais Minas.